terça-feira, 12 de julho de 2022

Uma nova leitura de FANTASIA e, novamente, NAPOLEÃO VALADARES me surpreende e me emociona, sobretudo nas PARÓDIAS, aquela "chave de ouro" com que encerra o livro. Dele destacamos, para hoje, 12/07/2022, CIRCULO VICIOSO. Mais do que paródia, esse diálogo com o mestre Machado de Assis, é uma lição de poesia. 


CÍRCULO VICIOSO 


Vagando sem ganhar, dizia o vagabundo:

- "Quem me dera eu que fosse aquela loura Estela, 

Que os homem pagam tanto para vê-la!"

Mas a Estela, mostrando um ciúme profundo: 


-"Pudesse eu copiar o meu parente Edmundo,

Craque famoso, cobre que, a fazer tabela,

Contempla, suspiroso, a glória amada e bela!"

Mas Edmundo, fintando e indo à linha de fundo:


-"Mísero! tivesse eu uma verde-amarela

Faixa de Presidente: poder, mando, o mundo!"

E o Presidente, com descrença e voz singela:


-"Pesa-me muito, muito, o cargo nauseabundo...

Enfara-me esta vida cheia de cautela...

Por que não nasci eu um simples vagabundo". 


- NAPOLEÃO VALADARES, premiado poeta, é  também um exímio sonetista, coisa rara nos tempos atuais. Mineiro radicado em Brasília, é também advogado. 

Pertence à ANE - Associação Nacional de Escritores, da qual já foi presidente, ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, à Academia Brasiliense de Letras e a outras entidades culturais de destaque. 

É preciso conhecer e divulgar a poesia mineira de Napoleão Valadares. Tem cheiro de Minas, tem jeito e tem o sabor especial de nossos sítios rochosos. Seu novo livro é, de ponta a ponta, lição de poesia e de mineiridade. 

(Poema extraído do exemplar recebido do autor). 

FANTASIA, poemas, saiu pela editora ANDREQUICÉ, 2020.  


 



domingo, 25 de abril de 2021

 

                    V I N C E N T

                                                          

                                   Danilo Gomes (*)

                     

                Nos campos dourados de  Arles

                ou na alameda recoberta de hera

                do sanatório de Saint-Rémy,

                Vincent van Gogh,

                angustiado, mas ainda lúcido,

                pinta íris e girassóis,   

                sem um vintém, sem um níquel  no bolso.

 

                 Só venderá um quadro

                 em toda sua vida.

                 Comprou-o Theo,

                 por amor fraterno e piedade.

 

                 Cem anos mais tarde,

                 Girassóis será leiloado

                 por quarenta milhões de dólares

                 pela Sotheby’s, de Londres,

                 e Íris por cinquenta e três

                 milhões de dólares,

                 pela Christie’s, de Nova York.

 

                  Pobre, neurótico e suicida.

 

                  Mas ninguém jamais pintará

                  um amarelo catártico como aquele

                  em qualquer lugar do mundo.

                  Só ele, Vincent, sem um vintém no bolso,

                  nos campos  dourados de Arles.

               

(*) - Da Academia Marianense de Letras, da Academia Mineira de Letras, da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, dentre outras destacadas instituições de cultura, o autor dispensa apresentações. 

O poema comovente, que dele recebemos e publicamos nesse espaço, é apenas uma mostra de seu extenso e luminoso trabalho, seja como crítico, poeta, pesquisador, historiador ou jornalista. 

De Mariana, radicado em Brasília desde 1975, pertence à ANE - ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE ESCRITORES, entidade da qual já foi presidente. Pertence também à Academia Brasiliense de Letras, onde foi recepcionado por Napoleão Valadares, poeta, contista e crítico, outro orgulho das Gerais em Brasília, respeitado estudioso da obra de Guimarães Rosa. 

Registre-se, finalmente, que "Danilo, Príncipe da Crônica", assim chamado por Edmilson Caminha (Jornal da ANE - agosto de 2012), é príncipe também da poesia. (Nota de Geraldo Reis - Da Academia Marianense de Letras).   

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

UM POEMA SUTIL: SUICÍDIO NA ACLIMAÇÃO, de Jorge Tufic

SUICÍDIO NA ACLIMAÇÃO


Jorge Tufic



Que nome dar à solidez dos objetos
que te viram partir,
o desespero branco voltado para onde tarde
o socorro da notícia o diminuto eco,
talvez,
de tua morte sequer imaginada?

Resta agora a solidão geométrica
do encarceramento vesperal,
com teus punhos ensanguentados,
a tua boca terrível
gasta e seca.

Pretúmulos edificados na linha dos postes
sacadas vazias, vento morno,
cortinas sem brilho.
Solitários vultos,
lá embaixo,
contemplam o domingo driblado
pelos velozes motoboys
entregadores de pizza.

Extraído de
A INSÔNIA DOS GRILOS
pág. 35 - FORTALEZA - 1998

(Do exemplar que recebi do autor, com dedicatória.) 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

DUÍLIO E MARCELLO, É BREVE A ETERNIDADE

Com atraso, repito em O SER SENSÍVEL a notícia que me chamou à realidade, pois, convocado para desempenhar novas tarefas substantivamente necessárias na vida, me fui distanciando dos amigos e colegas do SLMG, dentre eles Duílio Gomes, meu conterrâneo, de quem sempre fui admirador. Marcello e Duílio, é breve a eternidade! (GR).

Marcello Castilho e Duílio Gomes: A falta que eles fazem
O jornalismo cultural de Belo Horizonte perdeu, na semana passada, dois de seus melhores articulistas. Na terça-feira (1/11), o crítico de cinema e artes cênicas do jornal Estado de Minas, Marcello Castilho Avellar, foi encontrado morto em sua residência. A causa da morte teria sido um enfarto fulminante, aos 50 anos.
No sábado (5/11), morreu o escritor Duílio Gomes, depois de ficar em coma por dois meses em decorrência de um acidente vascular cerebral. Ele tinha 67 anos, foi editor do Suplemento Literário do Minas Gerais e ajudou a organizar a Bienal Nestlé de Literatura. Colaborou no Jornal do Brasil e no Estado de Minas como crítico literário.
Marcello era autodidata, professor de História do Teatro e integrante do Centro de Estudos Cinematográficos. Escrevia como poucos sobre qualquer assunto. Enciclopedista da modernidade, ele abordava temas relacionados à história, política, filosofia e artes em geral – principalmente cinema.
Duílio nasceu em Mariana, formou-se em Direito pela UFMG e ganhou vários prêmios literários. Presente em muitas antologias, publicou O Nascimento dos Leões (Interlivros, 1975), Prêmio Cidade de Belo Horizonte em 1972; Janeiro Digestivo (Comunicação, 1981); Verde Suicida (Ática, 1982); Deus dos Abismos (Lê, 1993), Prêmio Guimarães Rosa; e Fogo Verde (Lê, 1990). Era integrante o grupo de escritores denominado Coletivo 21.
Erudição solidária
Além da erudição despretensiosa, o que mais cativa nos dois articulistas era a solidariedade com que desenvolviam seu trabalho. Como editor do Suplemento Literário, na década de 1980, Duílio abriu portas para muitos colaboradores, alguns dos quais se firmariam nacionalmente como escritores de talento.
Trabalhava sob a superintendência de Murilo Rubião e dividia tarefas com autores como Adão Ventura, Jaime Prado Gouvêa, Manoel Lobato e Paschoal Motta. Além dos jovens talentos que buscavam espaço para publicar seus primeiros textos, o grupo convivia com artistas de várias áreas e com autores nacionais consagrados.
Já Marcello escrevia com extrema objetividade, colocando o tema erudito ao alcance de qualquer leitor interessado. Aqueles que conviveram com ele na redação do Estado de Minas são unânimes em reconhecer não só suas habilidades de articulista, mas também o caráter solidário com que se relacionava com seus pares.
Ele era daqueles que estão sempre prontos para ler e copidescar o texto do colega, burilando a visão estética sem nunca atropelar a ética no exercício da crítica ou da reportagem. Foi capaz de analisar uma partida de futebol realizada no Mineirão sob a ótica do espetáculo, sem entrar no mérito das paixões futebolísticas.
Escola diferenciada
Como homem de teatro, Marcello lecionou na Fundação Clóvis Salgado, na Oficina de Teatro de Pedro Paulo Cava – onde, aliás, se formou – e também na PUC Minas. Dirigiu alguns espetáculos de sucesso, entre eles o monólogo Vincent, de Jefferson da Fonseca, baseado nas cartas dos irmãos Théo e Vincent Van Gogh.
Com sua aguçada sensibilidade de crítico de cinema e de artes cênicas, ele ajudou a consolidar o trabalho de artistas mineiros que hoje têm projeção nacional, entre eles os cineastas Helvécio Ratton e Paulo Thiago, os grupos teatrais Giramundo e Galpão, e as companhias de dança Corpo e 1º Ato.
Marcello Castilho Avellar e Duílio Gomes pertenciam a uma escola diferenciada de críticos de artes. Eram daqueles que não se contentam em analisar as artes de fora, mas desejam contribuir com o fazer cultural a partir de suas visões estéticas propriamente ditas.
Por todos esses méritos como articulistas e homens de cultura, ambos farão falta à cena artística mineira e nacional, principalmente no momento empobrecedor e conturbado em que se encontra a mídia impressa no país.
Jorge Fernando dos Santos é jornalista e escritor
* Artigo publicado no site do Observatório da Imprensa, em O8/11/2011.
Autor: Jorge Fernando dos Santos

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

OS RIOS, poema de Jorge Tufic. Uma maravilha!

OS RIOS

Jorge Tufic

Os rios correm,
Seus nomes são vários e se repetem
de acordo com as margens.
A paisagem e o dom de ver o rastilho
dos cometas na cauda viva dos peixes
também pesa na medida dos nomes,
no ritmo das águas e do horóscopo
das mortes.

Este rio é uma pele que anda.
Uma pele que suga e se expande.
Este rio é uma cobra, veleiro
onde os feitos costuram
suas rotas de lenda.